ELEIÇÕES, O BRASIL MALDOSO E O BRASIL CARINHOSO

Manifestantes sobem na marquise do Congresso Nacional, em protesto por recursos para educação, saúde, passe livre no transporte público e gastos com grandes eventos de 2014

Nestes 8,5 milhões de km2 convivem brasils distintos. Há o Brasil que trabalha duro, paga cerca de cinco meses de salário em impostos, diretos ou indiretos ao governo. A desgraçada corrupção e privilégios imorais e desonestos, leva o governo a oferecer migalhas, da educação, passando pela saúde e educação. Já foi pior, mas ainda falta muito para vivermos em um País mais decente – culpa da elite encastelada nos três poderes e não na maioria de sua população.
Há o Brasil da classe política, seja de esquerda ou direita. Idealistas nos palanques, beijoqueiros de crianças nas campanhas, prometedores. Poucos desafiam o status quo. Nos gabinetes e tribunas há os que mantêm certa coerência enquanto grande parte, nos bastidores, apenas luta pela reeleição – pela permanência na ilha da fantasia, como é chamada Brasília – afinal o Congresso Nacional é o mais caro do mundo! Se na Suécia, país cujo socialismo tem lastro na Reforma religiosa do Século XVI, um vereador ganha entre R$ 80,00 a R$ 150,00 por sessão em que esteve efetivamente presente – e nada mais que isso – aqui um simples vereador ganha até R$ 10.000,00 por mês com obrigação, nem sempre observada, de participar de quatro ou cinco reuniões semanais! Essa realidade envergonha a cidadania porque é injusta, nociva, perversa. Por essas e outras é que milhões de cidadãos saíram, em 2013, às ruas de capitais brasileiras, exigindo mais respeito, repudiando mazelas, exigindo justiça. Logo veio a versão perversa, os black blocs, desmoralizando e intimidando a grande mobilização. A cidadania recuava.
Há os brasils dos favelados, comunidades que arrumaram um jeitinho de viver penduradas em morros, ou perigosamente junto a esgotos onde seus barrigudinhos brincam. Ali prospera o jeitinho brasileiro – paralelo ao jeitão do decurso de prazo, experientes, compadrismo, do segredo de justiça, das lojas e acordos secretos – o famoso toma lá, dá cá. Em nome da governabilidade as personagens dessa elite que perambula nos três poderes, segue sua sina e seu destino. Vários, procurados pela Interpol, são reeleitos pelo voto popular e permanecem com foro privilegiado, caducando crimes, evitando castigo; sorrindo com escarnio para eleitores analfabetizados. Seria tema para romances de um Dostoievski brasileiro. Não faltam discursos, novas leis para garantir a continuidade de tudo para ficar como está.
O jeitinho brasileiro luta contra a fome e pelo direito de uma tv, geladeira, bens de consumo, roupas de marca – mesmo que sejam da pirataria. Ali convivem policiais corruptos, pastores evangélicos, bares e templos, lojas e bailes fank, traficantes grandes e pequenos; vendedores de CDs e DVDS piratas, que engordam as finanças de contraventores. Ali crianças são aliciadas para serem soldados do tráfico, garotos e garotas de programa junto a rodovias. Rola o tráfico de armas e cocaína, que vem de grandes e mal cuidadas fronteiras do Paraguai, Bolívia, Colômbia. O sonho de Betinho, fome zero, virou o maior cabo eleitoral do Brasil com novo nome.
Quando o governo constitucional de João Goulart, nos anos sessenta, manifestou a intenção de fazer uma reforma agrária no País veio o golpe, orquestrado justamente por representantes de grandes latifundiários e grileiros de terras públicas. Uma das componentes do progresso social dos EUA foi a reforma agraria, feita há mais de 200 anos – gerando emprego, riqueza e justiça social. Aqui, Goulart e seus ministros foram taxados de comunistas. Com o advento da ditadura veio o chamado de agronegócio: Monocultura, maquinário, insumos químicos e venenos agrotóxicos: pão suspeito na mesa de milhões de brasileiros; país que leva no peito a medalha sinistra de maior consumidor de agrotóxicos. Restou ao povo, caboclos, mestiços, bugres amansados, o exílio da terra, a periferia ou a semiescravidão no avanço das patas de vaca penetrando florestas de preservação permanente – fogo, motosserras, contrabando.
Enquanto o impostômetro bate recordes sucessivos em letreiros da pauliceia desvairada, a imprensa denuncia supersalários fora-da-lei no Judiciário; recebemos e-mail que denunciam ministros do STJ ganhando até, ou mais de R$ 300 mil reais/mês, graças à soma de inúmeros benefícios e penduricários. Enquanto os volumosos processos se avolumam, há tempo para fantásticos hotéis e coberturas em Miami, compras em big stores, parques temáticos, ilhas do Caribe. Se você entra no site transparência do STJ pouca informação sobre centenas de milhões gastos, anualmente.
Em cidades como Foz do Iguaçu, uma das mais violentas do País, transitam milhares de muambeiros de todo o País, que fazem desse negócio seu jeitinho de sobreviver. Más línguas do país do Tio Sam dizem que ali são geradas receitas para grupos terroristas. Nessa babilônia a economia prospera do outro lado da ponte – e os zelosos policiais paraguaios fiscalizam as bolsas magras de patrícios que retornam do Brasil. Sob essa aparência de progresso rolam subornos enquanto milhões de cigarros fabricados no Brasil navegam nas águas do lago de Itaipu, regressando ao País de origem.
Há, porém, um Brasil diferente que teima sobreviver ao mar de lama em que chafurda certa elite. Podemos chamar de Brasil carinhoso. Aquele que divide o pão, multiplica a bondade, reparte o pouco e produz o milagre da sobrevivência digna. Enquanto os bancos são campeões do lucro – na crista da onda de altos juros nos quais milhões se endividam – milhares de catadores resgatam do lixo o paradigma da sustentabilidade – própria e do meio ambiente.
Ao lado de verdadeiros cristãos – que não são tantos, infelizmente – pululam seitas neopentecostais, milagreiros, vendedores de ilusões e negociantes de bênçãos. Deus transformado em negociante. Enquanto isso catolicismo romano amealha riquezas vendendo imagens, promovendo o turismo religioso a dezenas de santuários. Não faltam redes de TV para o proselitismo e a vida espiritual acaba virando objeto do mercado. Enquanto isso as telenovelas narcotizam milhões de expectadores, vendendo produtos, ditando a moda e fazendo valer a agenda da desconstrução da família tradicional.
Esse é um perfil deficitário do Brasil que desafia a mente e o coração daqueles que ainda sonham por um País onde as crianças e idosos sejam cuidados com a atenção que merecem. Onde todas suas tribos e comunidades tenham espaço para viver sua vida, diferente da massificação imposta, seja pelo Estado, seja pelas corporações multinacionais. Onde a biodiversidade seja valorizada e utilizada com a sabedoria e não pela gana. Grande parte da História, porém, fica presa entre grades acadêmicas, arquivos secretos ou sob o jugo de “segredos de justiça”.
A Nação, enfim, se dividiu pela metade, neste segundo turno, onde Dilma e Aécio, como jogadores teleguiados por marqueteiros, defenderam sonhos que os brasileiros sonham e se acusaram das mazelas de sempre, que manchetes da imprensa expuseram, reafirmando o direito constitucional da liberdade de informação e pensamento.
(José J Azevedo)

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